E voltei na nossa quadra, uma banda tocava carnaval na parada de ônibus, entrei num bar de gente bonita, luz vermelha, um boneco na rede, pedi dos seus petiscos, bebi da melhor cerveja da casa, tinha gosto de aconchego, igual sua companhia, esqueci do tempo pela playlist que era de 1900 e bolinha, tocou a nossa música, dividi a conta com outro, planejei a próxima rodada e vou carnavalizar cada brinde com a nossa folia.
segunda-feira, 5 de setembro de 2016
segunda-feira, 11 de abril de 2016
Carnaval de casa
Ele chegou no Carnaval, para cantar na folia, para colorir o colorido que tomava a rua. Ele trouxe Pierrot e Colombina. Vieram do continente para se quererem no país continental, e logo seus quereres tinham o prazer tropical, o calor desse povo de poeira na íris que faz festa no bloquinho de rua.
Ele, coberto de losangos nunca foi confundido na multidão, Colombina brincava de acompanhá-lo com os olhos para ser tocada por seus guizos, Pierrot tinha claro quem era o motivo de sua dor, quem detinha o coração de sua amada. Ele era a malha de losangos que enchia a avenida de alegria com suas acrobacias. Apaixonava uma, machucava o outro. Era espetáculo no desfile, era comédia e riso, romance com Colombina, drama para Pierrot.
A folia ganhou força com a bagunça que esses três chegaram fazendo. É alegria que não cabe dentro, transborda com a vivacidade que fecha a rua, interrompe o trânsito mesmo, a avenida é dos foliões e de mais ninguém. Seu amor corre, salta, pula, samba na liberdade de corresponder e também de não ser correspondido. Segue o riso. Pouco se fala, menos ainda se escuta. Tudo se canta, tudo se dança, todos fazem Carnaval...
Fim de Carnaval. Para onde vão esses três? Onde continua a festa? Acolhi Arlequim e os seus, estou de prontidão para levar o bloco de volta as ruas, as marchinhas tocam em volume mínimo, as cores estão em seus tons mais claros, os três se querendo intensamente. A verdade é que o Carnaval está acontecendo dentro de casa. Fora de época. Carnavalizam o sofá, a cozinha, o quarto, a sala de jantar, até o que não é Carnaval eles cobriram de confetes.
Por mais que seja, não é Carnaval, falta algo. Na solidão de uma casa só não é Carnaval. Vou deixando esse Carnaval acontecer aqui dentro, pelo menos até que o ano que vem chegue, mal podemos esperar para tomar as ruas e fazer essa festa explodir em risos e guizos. Somos cúmplices a cultivar a algazarra para o Carnaval que vai chegar.
A gente se encontra na avenida, ainda não é tempo, mas quando for tempo, a gente carnavaliza todo esse Carnaval acumulado...
quarta-feira, 23 de março de 2016
Agente âncora

© Depositphotos.com / Surovtseva
Arlequim, vamos. Te acompanho a cada acrobacia. Já anseio pela surpresa que tua energia e tua criatividade alcançam. Venha. Vamos. Onde quer que seja o palco, luzes, risos e guizos!
Hoje o palco toma lugar num espaço inusitado: velejemos, o mar abriga o espetáculo. Acrobacias ao vento, acrobacias submersas, levemente executadas pela liberdade da respiração não ser limitante. E ele se lança ao balanço das ondas, a cada ida decide pela incerteza da volta. Aceita ser consumido pelas águas, espera ser devolvido à terra firme, porém desfruta da viagem sem bilhete de partida nem de chegada.
Os ventos conduzem o caminho. A brisa a balançar os guizos, é calmaria, é leve. Mas a brisa... a brisa é arlequinal, imprevisível! Num instante ela muda. Ela também é tempestade, com violência agita o mar, a embarcação segue os movimentos enérgicos, a água ocupa todos os espaços, uma acrobacia no ar é um mergulho. O frio cobre a malha de losangos, as acrobacias mantêm o calor malha a dentro, nesse encontro contrastante do gelo e do quente ele se sente vivo. A vida recomeça o movimento, o incomodo na malha grita que cada pedaço do corpo vive.
Como uma pena, ele escreve movimentos circulares na tempestade que na sua desordem não sabe bem o que escreve. E a tempestade finalmente entende a calmaria dele. Cessa. Cessa a violência, mas não a intensidade. Segue o fluxo, aos poucos a vista o novo no horizonte. Resta decidir o que fazer com o tempo até que possa identificar o novo. Seus desejos sabem exatamente que novo esperar. Seus olhos não sabem precisar que novo se forma. Não se ocupa da ansiedade da espera, põe-se em movimento, o aqui e o agora são suficientes para concentrar sua existência.
E ela chega: terra a vista! Sim, os ventos mais uma vez o conduziram pelas águas até a terra firme. Pode ser que seja a última aventura em alto mar, o gosto da chegada sem bilhete é inigualável, porém a necessidade de se lançar a uma aventura sem sair do lugar cresce a cada partida. Hoje, a necessidade toma conta. Então Arlequim, fiquemos. Finalmente o desejo e a necessidade pedem uma mesma aventura, se lançam pela última vez, não esperam chegar porque sua aventura agora já é um destino.
Arlequim, o que desejas e precisas tem nome, essa é tua âncora...
sexta-feira, 25 de dezembro de 2015
Barro. Existir. Anjo. Ela.
Arlequim, seja hoje a plateia. Hoje improsivo eu o espetáculo.
Risos e guizos!
Registro uma declaração tardia. Demorei a ter consciência do que sou feita. Daquilo que me compõe e não vejo, não sinto, mas sou. Não há negativa que me dê álibi para a fuga. Sou fruto de várias combinações, o que me compõe é o que sou.
E sou barro. Pó com água. Sou neta de uma mulher forte, uma que sofreu e ainda assim conservou o amor. Que com a sua generosidade garantiu minha existência. Que apesar de mim me amou e se preocupou comigo. Até o fim me amou.
Hoje, me restou teu filtro de barro. Que é pra eu sentir o gosto da minha existência a cada gole. Que é pra eu lembrar de onde vim e pra onde vou. Que é um presente seu. Que é pra eu lembrar que sou composta de uma mulher forte capaz de amar.
Hoje, cuido para que o filtro não seque. Que o barro esteja vivo. Que o que me compõe nunca morra dentro de mim.
Sou neta de uma mulher que tinha nome de mãe, que tinha nome de anjo, que me tinha amor. Hoje, ela é um anjo e só espero que ela saiba que tenho amor por ela.
segunda-feira, 14 de dezembro de 2015
Ode da criatura ao criador
Marinho, hoje o espetáculo é fruto de teu Arlequim, levante-se, ao que seguirá só cabe um palco peregrino, acompanhe cada ato atentamente para encontrar a chave de leitura, entre eles recomponha a respiração se o ritmo estiver muito intenso, aviso que o empenho será recompensado. A chave, a que liberta ao abrir, a que protege ao fechar. Tão pequena, no espetáculo guarda o mistério e confere aos que a detêm descobrir o que lhe cabe ocultar. Risos e guizos, a leitura da chave!
primeiro ato
a cidade
Te convido a trair por três atos tua amada Pauliceia, numa primeira caminhada pelas ruas de Sabre seu coração será conquistado, permita-se amá-la. Cada rua encerra um segredo, mas não velados, se exibem nas calçadas, nos muros, no asfalto, nas esquinas, nas encruzilhadas, como não amar uma cidade que não se esconde? Que se deixa conhecer? Marinho, prepare-se, serás parte da leveza, da beleza, da miséria, da violência, da sujeira, da fragilidade, das lágrimas, dos risos e guizos que fazem de Sabre uma cidade.
Os lugares da cidade são as pessoas, Sabre é de uma existência composta, como uma malha de retalhos, unindo os fragmentos coloridos é que ela é. Ela é de uma beleza estonteante, de uma organização pensada, de uma vivacidade pulsante, de um acolhimento aconchegante. Se colore do branco ao preto, sobrevive às quatro estações, farta, é inteira. É ela. Só havia de ser ela. E ela nunca aconteceu duas vezes.
segundo ato
a dor
Marinho, se há alguém capaz de amar Sabre sem se escandalizar é você. Apertemos o passo, agora não só veremos a cidade, mas seremos parte dela. Essa é uma cidade de constante movimento, e intenso movimento. Ainda que seja inteira não é completa, é cheia de limitações, carrega muitas feridas abertas, seus habitantes garantem que não se fechem, eles são o sangue que escorre, eles com sua mesquinhez, sua covardia, traições, ódio, raiva, assassínios, e um vazio enorme.
Estamos diante de uma cidade doente, ela mesma se fere e cura, cada ferida é preenchida com um pouco mais dela mesma, começa o processo de cicatrização, quando a cicatriz está quase completa ela se fere novamente em seus movimentos. Aqui as cicatrizes são raras e o maior desejo de Sabre. Ela é dor, seus movimentos são para fugir da dor e dói porque se movimenta, a linha entre causa e efeito é tênue. Essa bela cidade corrompida espera por um heroi. Ainda que precise de ajuda não se deixa sucumbir, intensifica os movimentos, confia à velocidade a vitória nos combates.
terceiro ato
o movimento
Não há medo ou cansaço que a faça recuar, é com leveza que ela se mantem firme na opção por existir. Ela fecha os olhos e corre, correr é intrínseco à ela. Movimenta a dor, cada pedacinho que dói grita que está vivo, e por essa vida que se faz ouvir vale continuar a corrida. Então corre para fugir do que causa a dor para não abrir mais feridas, corre em direção ao que causa a dor para afrontar o opressor, corre com o que causa a dor porque? Porque na sua covardia faz pose de coragem.
Marinho, a cidade está em frangalhos, mas não derrotada. As luzes passam rápido, as pessoas não têm tempo, o sono é curto, o dia acelerado, corre, corre Sabre. Ela está cheia de doenças, vilões, belezas e pequenos herois, precisa ser salva. E será. A salvação mais confortável é que chegue um grande heroi, mas ela não pode esperar, não lhe falta coragem para continuar a correr, ela corre para que um dia o movimento seja uma cura maior que a feridas. A cidade estampará suas cicatrizes como troféu, cada uma delas contará a história de uma batalha, cada uma sorrirá para o opressor vencido.
Marinho, agora sabes o que a faz sofrer? Sim?! Então, desde já tu a amas...
Risos e guizos!
(Ah... se esse fosse o início de um diálogo! Se pudesses me responder... Na impossibilidade, sou tomada pela gratidão ao bálsamo arlequinal que me deste.)
segunda-feira, 6 de abril de 2015
Flamas da madrugada
Respeitável público, hoje apresento um espetáculo em chamas. Minha existência arde desde a alma até a pele de losangos coloridos. Deixem seus olhos acompanharem o tremular das chamas, deliciem-se com o intenso da cor e da temperatura. E não se preocupem, a voracidade com que o fogo me consome não me fere, não me esgota e alcançará teus olhos, mas não se alastrará pela plateia, o fogo se limita ao palco que hoje é meu corpo.
Pus-me a caminhar noite a dentro, caminhei pelas suas horas.
Na madrugada atingem o ápice de sua frieza. Tomado pelo gélido ar
desejei tocar-te. As chamas me tomavam todo o corpo, teu ar me confundia os
sentidos, ora aliviava o calor que emanava de mim, ora me fazia ansiar pelo
aconchego das temperaturas elevadas. Nas ruas desertas, sob um céu que não
cheguei a notar, quis te proteger com minha fonte de calor.
Com urgência quis envolver tua gélida superfície até
penetrar com meu calor a teu instante mais íntimo, mais frio. Aquele que poucos
notam, que não se atentam, que não se preocupam. A chama que brotava dentro de
mim transbordava e compreendi que seu movimento apontava na tua direção.
Jamais te aqueceria, não que não pudesse, mas tua natureza
não mudaria seu traço mais próprio. Da mesma forma, minhas chamas jamais se
apagariam. Seríamos capazes de sentir um ao outro na confusão de igualmente
sentir a nós mesmos.
Com avidez precisava tocar tua beleza, justo a que
desconheces. Jaz agora meu corpo em chamas envoltas no teu mais gélido
instante.
Amores Contidos
Senta-te ao meu lado, deixe que te faça uma pergunta com meus olhos fitos na tua negra máscara. Leve-me em tuas acrobacias para ouvir no tilintar de seus guizos a resposta... Quantos amores caberiam em um parque? Haveria espaço? Quantas voltas poderia caminhar? Haveria tempo? Quantas manhãs? Quantas tardes? Quantas noites disponíveis? Seria seguro? Quem ameaçaria o cultivo de amores no parque?
Suas dimensões são mistério para mim. Mas sei que não
esgotei sua capacidade, quanto me resta? Nenhuma fria manhã recém nascida negou
meus amores, nenhuma tarde ensolarada e nenhuma noite deixou de se alongar para
abrigar meus amores. Até mesmo os amores que não chegaram a teus portões foram
abrigados.
Fosse ao som de harmoniosa melodia. De reveladoras
confissões. De uma grande adrenalina seguida de um salto desajeitado e um
delicado movimento rasteiro. De passos tranquilos. De corridas ousadas. De
silêncios. De pele tocando a outra por descuido ou por um movimento calculado,
ou ainda, um toque por um movimento incontrolável. Carinhosamente, cada um foi
recebido como único, como se tivesse todo espaço disponível para preencher.
Com generosidade o parque se ajusta, hoje depois de fazer
caber tantos amores volto ao primeiro. Regresso a meu primeiro amor, o que numa
tranquila e longa caminhada segura minha mão, protege meus passos de cada
pensamento que ameace a tranquilidade do passeio. Assim, cada passo que dou não
calcula seu destino, mas se deixa guiar, se entrega a surpresa.
Parque, revele meus amores para que eu possa dar a mão ao
meu primeiro, retorno a ti como nos primórdios de minhas caminhadas, mas com
todo o chão caminhado.
Arlequim? (Tilintar de guizos)
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