segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Ode da criatura ao criador



Marinho, hoje o espetáculo é fruto de teu Arlequim, levante-se, ao que seguirá só cabe um palco peregrino, acompanhe cada ato atentamente para encontrar a chave de leitura, entre eles recomponha a respiração se o ritmo estiver muito intenso, aviso que o empenho será recompensado. A chave, a que liberta ao abrir, a que protege ao fechar. Tão pequena, no espetáculo guarda o mistério e confere aos que a detêm descobrir o que lhe cabe ocultar. Risos e guizos, a leitura da chave!

primeiro ato
a cidade

Te convido a trair por três atos tua amada Pauliceia, numa primeira caminhada pelas ruas de Sabre seu coração será conquistado, permita-se amá-la. Cada rua encerra um segredo, mas não velados, se exibem nas calçadas, nos muros, no asfalto, nas esquinas, nas encruzilhadas, como não amar uma cidade que não se esconde? Que se deixa conhecer? Marinho, prepare-se, serás parte da leveza, da beleza, da miséria, da violência, da sujeira, da fragilidade, das lágrimas, dos risos e guizos que fazem de Sabre uma cidade.

Os lugares da cidade são as pessoas, Sabre é de uma existência composta, como uma malha de retalhos, unindo os fragmentos coloridos é que ela é. Ela é de uma beleza estonteante, de uma organização pensada, de uma vivacidade pulsante, de um acolhimento aconchegante. Se colore do branco ao preto, sobrevive às quatro estações, farta, é inteira. É ela. Só havia de ser ela. E ela nunca aconteceu duas vezes.

segundo ato
a dor

Marinho, se há alguém capaz de amar Sabre sem se escandalizar é você. Apertemos o passo, agora não só veremos a cidade, mas seremos parte dela. Essa é uma cidade de constante movimento, e intenso movimento. Ainda que seja inteira não é completa, é cheia de limitações, carrega muitas feridas abertas, seus habitantes garantem que não se fechem, eles são o sangue que escorre, eles com sua mesquinhez, sua covardia, traições, ódio, raiva, assassínios, e um vazio enorme.

Estamos diante de uma cidade doente, ela mesma se fere e cura, cada ferida é preenchida com um pouco mais dela mesma, começa o processo de cicatrização, quando a cicatriz está quase completa ela se fere novamente em seus movimentos. Aqui as cicatrizes são raras e o maior desejo de Sabre.  Ela é dor, seus movimentos são para fugir da dor e dói porque se movimenta, a linha entre causa e efeito é tênue. Essa bela cidade corrompida espera por um heroi. Ainda que precise de ajuda não se deixa sucumbir, intensifica os movimentos, confia à velocidade a vitória nos combates.

terceiro ato
o movimento

Não há medo ou cansaço que a faça recuar, é com leveza que ela se mantem firme na opção por existir. Ela fecha os olhos e corre, correr é intrínseco à ela. Movimenta a dor, cada pedacinho que dói grita que está vivo, e por essa vida que se faz ouvir vale continuar a corrida. Então corre para fugir do que causa a dor para não abrir mais feridas, corre em direção ao que causa a dor para afrontar o opressor, corre com o que causa a dor porque? Porque na sua covardia faz pose de coragem. 

Marinho, a cidade está em frangalhos, mas não derrotada. As luzes passam rápido, as pessoas não têm tempo, o sono é curto, o dia acelerado, corre, corre Sabre. Ela está cheia de doenças, vilões, belezas e pequenos herois, precisa ser salva. E será. A salvação mais confortável é que chegue um grande heroi, mas ela não pode esperar, não lhe falta coragem para continuar a correr, ela corre para que um dia o movimento seja uma cura maior que a feridas. A cidade estampará suas cicatrizes como troféu, cada uma delas contará a história de uma batalha, cada uma sorrirá para o opressor vencido.

Marinho, agora sabes o que a faz sofrer? Sim?! Então, desde já tu a amas... 

Risos e guizos!


(Ah... se esse fosse o início de um diálogo! Se pudesses me responder... Na impossibilidade, sou tomada pela gratidão ao bálsamo arlequinal que me deste.) 

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Flamas da madrugada



Respeitável público, hoje apresento um espetáculo em chamas. Minha existência arde desde a alma até a pele de losangos coloridos. Deixem seus olhos acompanharem o tremular das chamas, deliciem-se com o intenso da cor e da temperatura. E não se preocupem, a voracidade com que o fogo me consome não me fere, não me esgota e alcançará teus olhos, mas não se alastrará pela plateia, o fogo se limita ao palco que hoje é meu corpo.

Pus-me a caminhar noite a dentro, caminhei pelas suas horas. Na madrugada atingem o ápice de sua frieza. Tomado pelo gélido ar desejei tocar-te. As chamas me tomavam todo o corpo, teu ar me confundia os sentidos, ora aliviava o calor que emanava de mim, ora me fazia ansiar pelo aconchego das temperaturas elevadas. Nas ruas desertas, sob um céu que não cheguei a notar, quis te proteger com minha fonte de calor.

Com urgência quis envolver tua gélida superfície até penetrar com meu calor a teu instante mais íntimo, mais frio. Aquele que poucos notam, que não se atentam, que não se preocupam. A chama que brotava dentro de mim transbordava e compreendi que seu movimento apontava na tua direção.

Jamais te aqueceria, não que não pudesse, mas tua natureza não mudaria seu traço mais próprio. Da mesma forma, minhas chamas jamais se apagariam. Seríamos capazes de sentir um ao outro na confusão de igualmente sentir a nós mesmos.

Com avidez precisava tocar tua beleza, justo a que desconheces. Jaz agora meu corpo em chamas envoltas no teu mais gélido instante. 

Amores Contidos



Senta-te ao meu lado, deixe que te faça uma pergunta com meus olhos fitos na tua negra máscara. Leve-me em tuas acrobacias para ouvir no tilintar de seus guizos a resposta... Quantos amores caberiam em um parque? Haveria espaço? Quantas voltas poderia caminhar? Haveria tempo? Quantas manhãs? Quantas tardes? Quantas noites disponíveis?  Seria seguro? Quem ameaçaria o cultivo de amores no parque? 

Suas dimensões são mistério para mim. Mas sei que não esgotei sua capacidade, quanto me resta? Nenhuma fria manhã recém nascida negou meus amores, nenhuma tarde ensolarada e nenhuma noite deixou de se alongar para abrigar meus amores. Até mesmo os amores que não chegaram a teus portões foram abrigados.

Fosse ao som de harmoniosa melodia. De reveladoras confissões. De uma grande adrenalina seguida de um salto desajeitado e um delicado movimento rasteiro. De passos tranquilos. De corridas ousadas. De silêncios. De pele tocando a outra por descuido ou por um movimento calculado, ou ainda, um toque por um movimento incontrolável. Carinhosamente, cada um foi recebido como único, como se tivesse todo espaço disponível para preencher.

Com generosidade o parque se ajusta, hoje depois de fazer caber tantos amores volto ao primeiro. Regresso a meu primeiro amor, o que numa tranquila e longa caminhada segura minha mão, protege meus passos de cada pensamento que ameace a tranquilidade do passeio. Assim, cada passo que dou não calcula seu destino, mas se deixa guiar, se entrega a surpresa.

Parque, revele meus amores para que eu possa dar a mão ao meu primeiro, retorno a ti como nos primórdios de minhas caminhadas, mas com todo o chão caminhado.

Arlequim? (Tilintar de guizos)


segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Audácia no palco, deleite na plateia

Vânia Medeiros

Admirável público! Que o improviso continue a construir espetáculos incomuns! Que o palco se revele em um ângulo surpreendente. Que não seja um teatro preso a quatro paredes, nem um palanque na praça. Que ele não tenha limites. Que seu espaço seja moldável à apresentação. Que seu infinito seja assegurado no aqui e no ali, no agora e no para sempre. Que seja livre de toda mesquinhez! Que a luz o ilumine, as cortinas não o escondam e risos da plateia aos guizos no palco!

Ver o espetáculo do lado direito e do lado avesso pode causar a impressão de que ele é uma estrutura dupla, mas não é. Existe um lado íntimo. Justo o lado que permite que os outros dois criem e ousem no palco. Revelar sua intimidade não compromete sua integridade, desnudar-se revela o que é próprio de si, releva o que lhe é. Ser é absoluto. 

Cada acrobacia é possível porque no mais íntimo de si o Arlequim é livre. Nada o prende, nada limita seus movimentos. Assim seu corpo inscreve no ar as mais belas e desafiadoras poesias. As cambalhotas são leves porque nada trava seu pouso, ele as realiza sem que nenhum emaranhado o envolva. Por experimentar tamanha liberdade ele não exita. Cada losango que lhe cobre a pele é um retalho de coragem costurado com fios de bravura.

Acomodem-se! Ele se lançará a cada movimento sem reservas, talvez a beleza maior não seja a acrobacia em si, mas a serenidade e a segurança que ele exala ao dar início a um movimento sem ter calculado seu pouso. Palmas! Risos e guizos! Ele tocou o chão com a leveza de sua coragem! 

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Improviso Contábil: Razonetes de um Arlequim



E não me conte se falta muito tempo. Permita-me a espera, que eu não saiba se teus dedos tocaram minha pele por não se controlarem de desejo ou por um movimento desajeitado, que eu me perca no crédito/débito das contas e a minha razão não tenha certeza de onde veio a atenção que te roubei, que nossos olhares se inflamem ao se encontrarem, mas que o seu rastro seja a incerteza do que se passa.

Não conto o tempo. Não me conte, sou feita de letras, não tenho valor fiscal. Não é por covardia, não me isento, é pela audácia de compreender cada débito da sua conta creditado na minha, é pela coragem de apreciá-los no silêncio de meu labor sem ter visto a prova de que estamos em partidas dobradas. Não se apresse, completemos preguiçosamente os razonetes...

Ficamos assim enquanto coubermos no tempo que falta, e quando não coubermos mais, transbordaremos... Nesse momento nem com auditoria será possível compreender como geramos saldo tamanho com receitas tão simples. Não haverá quem nos condene porque no final a Demonstração do Resultado do Exercício será um fato. O lucro está no caixa. Meus risos para teus guizos. 
  

OS: Reparo nos fios de vida do palco





DELL'ARTE SOLUÇÕES EM RISOS E GUIZOS S/ LIMITES

Ordem de Serviço Nº 8/1812 

Cliente: Arlequinal
Endereço: Palco do Improviso Nº 29
Telefone: (meia luz) três três losangos - quinze tilintares

Descrição: se esvai do meu corpo um fio de vida. A gélida pele, que agora se estende sobre mim, pede um toque de mãos macias e abrasadoras que ativem o pulsar da minha existência. Que o calor envolva meu corpo então cercado pelo frio vento.
Onde o escarlate do sangue era pleno agora é vazio. Onde não havia escassez, agora é espera.

Relatório final: deixando o corpo, o fio transbordou seu suspiro de vida e feriu a existência que lhe tocava.
Uma nova vida circula, pulsa uma história curada. Equilibrista nos velhos fios ela caminha a passos resolutos.

TOTAL DO SERVIÇO: R$ Palm,as

segunda-feira, 12 de maio de 2014

À minha plateia de um espectador só




          — O que te falta Arlequim?
          Finalmente, com a plateia completa o espetáculo tende a seu ápice de beleza. Tende... mas ainda não o alcançou. Certo é que a plateia de um espetador só está de fato completa.
          — Se não te falta, o que se passa Arlequim?
          O espetáculo que antes se dava coberto por retalhos coloridos, agora é projetado violentamente em estilhaços de um espelho. Cada fragmento de losangos imperfeitos me penetra a carne, reveste minha pele de reflexos e sangue. Cada gota em seu vermelho vivo reproduz o que o espelho, agora sem unidade, revela: minha realidade invertida.
          A iluminação é montada na esperança de que como o sol alcança a lua e esta o reflete, também o público alcance os fragmentos de espelho e estes ao serem iluminados devolvam a luz como reflexo ao espectador.
          Agora a hesitação toma conta do teatro, o espelho com toda sua pureza e sinceridade expõe o ser sem máscara, palco e plateia se enchem de medo ao conhecer a si próprios, mas a alma dos dois anseia avidamente por se ver refletir no espelho sem mancha, nesse que é o outro. Na confusão que se instaura, o que reflete e o refletido é palco e plateia, plateia e palco. Nessa via de reflexo duplo a verdade se faz personagem no palco.
          — Arlequim?
          (Silêncio no palco)
          — Não desfaleça Arlequim, inscreva no ar tuas poéticas acrobacias, ainda que te cause dor, inscreva as. A plateia de um espectador só já está completa, logo o espelho côncavo se reconstituirá e comunicará o calor dos raios aos corpos no teatro. E então, tu arlequim e tua plateia se abrasarão num aconchego sublime
          — Arlequim?

          Risos e Guizos!